quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Peixarias da infância


Para algumas pessoas, peixaria é sinônimo de nojo e mau cheiro. Para mim traz lembranças boas – quando ia com meu vô e minha vó, ao mercado de Guaratuba. Enquanto a outra parte da família direcionava suas cadeirinhas, isopores e guarda-sóis para a praia, eu, o vô e a vó praticávamos a análise das guelras dos peixes, a rigidez dos camarões, o frescor dos mariscos.
Minha vó sentava nos degraus para comer ostras frescas, abertas na hora, fornecidas pelo pescador ainda no barco.
Cheiro de frutos do mar, para mim, é aroma da infância.
O passado – este antigo mercado que hoje nem existe mais.
É claro que havia outro interesse – comprar um gibi de super-heróis na banca da praça (a única da cidade) no caminho de volta.  Gibi que eu lia entre um picolé e outro, na praia, protegido pela sombra do guarda-sol da família.
Lá pelas 13h voltávamos para casa. Parte da galera mandava ver na cozinha, e outros (como eu) cheirávamos as panelas. De vez em quando me arriscava na limpeza de um ou outro peixe.
Terminava de ler o gibi na rede até a hora do almoço.
Depois o dia seguia na velocidade normal e na manhã seguinte lá estávamos novamente – eu, o vô e a vó, para mais uma aventura no mercado. Entre linguados, salmões, robalos, polvos, lulas, ostras e camarões fantásticos.
Eu – um mero piá de prédio curitibano. Empolgado com criaturas marinhas e faminto por gibis.
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Por isso resolvi desenhar uma peixaria do Mercado Municipal. Escolhi a Keli Mozer porque fica numa das esquinas e possui um ângulo mais interessante. Croquizei de pé, para conseguir ver melhor os detalhes, em virtude à aglomeração de clientes. Curiosos e compradores, disputando pacotes de seres oceânicos, selecionando um ou outro peixe, analisando os preços nas plaquinhas, solicitando pesagens, pagando & pegando as compras.  As crianças impressionadas com as imensas postas e tentáculos.
Gosto do desafio de registrar o intervalo de tempo, desenhando alguns personagens de memória. Condensar a tarde toda numa única imagem. Risoto de sketch com memória de avós, aroma marítimo e tempero de zumbido urbano.
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Medida: 18 x 26 cm
Técnica: nanquim, aquarela, POSCA, tinta acrílica & lápis de cor
Papel Arches 300 g/m² satinado


(Fabiano Vianna, 25/07/15)



Do pontilhismo de Seurat às aquarelas do cotidiano


Neste final de semana voltamos ao Jardim Botânico – um parque solarizado e colorido de flores. Turistas, músicos, curtidores, atletas, namorados, pais, vikings [!]. Verdadeiro desfile de estampas e objetos habituais. Bonés, bolsas, tênis, carrinhos de bebês, bolas, celulares, bicicletas, moletons.
O costume parece o mesmo da época dos brothers impressionistas Seurat, Renoir, Monet, Degas – preencher os gramados, entre as árvores, sentar na grama, conversar com amigos, contemplar a luminosidade dos lagos e desenhar.
Pitoresco imaginar os impressionistas desenhando incólumes entre os citadinos, pintando quadros que se transformaram no registro mais potente de uma época. Potentes porque preservam, dentro de cada imagem estática, milhares de cenas não fotografadas.  E o mais irônico disso tudo é que o pontilhismo de Georges Seurat inspirou a criação da televisão, prensa e imagens digitais mais tarde.
Avante novos impressionistas!!

(Fabiano Vianna, 19/07/15)

Impressionistas contemporâneos no Jardim Botânico (ou USK Curitiba #4)

Foto: Davi Cavalheiro

Domingo na Ilha da Grande Jatte, Georges Seurat. 1884

A criação da bisnaga de tintas pelos holandeses, na época do Impressionismo, viabilizou que os artistas fossem para a rua pintar. Os desenhadores passaram a registrar o cotidiano urbano in loco. Cafés, cabarés, parques, ruas, estações. Concentraram-se na captura das diferentes atmosferas do dia, influenciados pela nebulosidade e luminosidade.
Este quadro de Georges Seurat – “Uma Tarde de Domingo na Ilha de La Grande Jatte” representa muito bem isso. A ambiência urbana, com seus transeuntes e roupas típicas. Na cena, inclusive, o rapaz que segura o cachimbo, o faz na mesma posição que alguém hoje manda um SMS, bate uma selfie ou conversa no celular.
É muito curioso comparar esta cena com nossas experiências urban sketchers e croquizeiras, mergulhados nas reuniões citadinas.
Neste final de semana voltamos ao Jardim Botânico – um parque solarizado e colorido de flores. Turistas, músicos, curtidores, atletas, namorados, pais, vikings [!]. Verdadeiro desfile de estampas e objetos habituais. Bonés, bolsas, tênis, carrinhos de bebês, bolas, celulares, bicicletas, moletons.
O costume parece o mesmo da época dos brothers Seurat, Renoir, Monet, Degas – preencher os gramados, entre as árvores, sentar na grama, conversar com amigos, contemplar a luminosidade dos lagos e desenhar.
Pitoresco imaginar os impressionistas desenhando incólumes entre os citadinos, pintando quadros que se transformaram no registro mais potente de uma época. Potentes porque preservam, dentro de cada imagem estática, milhares de cenas não fotografadas.  E o mais irônico disso tudo é que o pontilhismo do Seurat inspirou a criação da televisão, prensa e imagens digitais mais tarde.

(Fabiano Vianna, 19/07/15)


Foto de Washington Takeuchi



Chuva no MuMA


Terceiro encontro do Urban Sketchers Curitiba: MuMA (Museu Metropolitano de Arte), em frente ao movimentado Terminal do Portão. Chovendo muito. Resolver o traçado das linhas diagonais – brancas & cinzas com gotas pululando sobre os volumes foi um desafio. Desfile de guarda-chuvas e cachecóis num típico domingo invernal de bairro. Jovens torcedores passavam cantando e batucando em ônibus lotados – nem ligando para a chuvarada; protegidos pelas abas dos bonés. Senhoritas invernais atravessando na faixa molhada. Apenas embaixo da árvore é que os pingos davam alguma trégua, enquanto os urban sketchers desenham numa boa. Capturar a chuva é paralisar o tempo. Quantas gotas moram em um segundo?

(Fabiano Vianna, 12/07/15)



terça-feira, 2 de junho de 2015

Aquarelinhas do cotidiano



Você não pinta quadros maiores? Não. Minhas pinturas são assim mesmo – pequenininhas. Aquarelas do cotidiano. Com cores amareladas, tons rebaixados. Inspiro-me na singeleza das crônicas do Rubem Braga ou do Carlos Drummond de Andrade. Na “curitibânia” do fantástico e inspirador Luís Henrique Pellanda. 
E também é por isso que insiro personagens. No fundo tento desenhar histórias, na toada destes grandes mestres. 
Minhas aquarelas não se destacam na cruel concorrência dos quadros imensos. Juarez Machado, De Bona? Ai de mim! Minhas aquarelinhas são tipo miniconto do Dalton Trevisan. Ficam ali entre uma prateleira e outra, de preferência na parede mais escura (para proteger do sol). Apesar da discrição, possuem uma infinidade de acontecimentos – inclusive os não retratados. Como disse o meu amigo Raro de Oliveira : a primeira parte de uma crônica não continuada. 
Boas para carregar embaixo do braço. Levar na bolsa durante uma flanada na XV. Continuar a rabiscar na Confeitaria das Famílias ou em outro café.
Alguns escritores preferiram escrever contos a romances. Jorge Luís Borges, Murilo Rubião, Valêncio Xavier... 
Preferiram a concisão à prolixidade. 
Para mim a aquarela é como a crônica. Próxima do “narrador”. É aquele passarinho que pousa na janela de uma das casinhas do Bosque do Papa ou o vendedor de pipoca na Praça Tiradentes em dia de missa na Catedral.

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Aquarela:  Rua Schiller (também conhecido como Jardim Ambiental) para Cezar Tridapalli. Foi um desafio captar o astral exato desta rua tão única, com estas sombras, pássaros e movimentos tão próprios. Descobri que um dos detalhes primordiais eram os paralelepípedos circulares. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Croquis Urbanos para mim

Rafael Pto

Desde que comecei a participar dos encontros semanais do “Croquis Urbanos”  – grupo que se encontra para desenhar a urbe, sinto-me mais vivo. É como se nanquim corresse em minhas veias e canetas brotassem de minhas mãos.
Desenhar é muito prazeroso.
Vivi durante muito tempo apenas ilustrando para clientes, muitas vezes em frente ao computador. Utilizando meu traço para resolver os “jobs” rotineiros. E estava infeliz (só) com eles por serem criações muito direcionadas.
No “Croquis”, redescobri um traço mais visceral, livre, solto. Voltei a experimentar grafismos e pintar com aquarela na rua. Sentir o cheiro da tinta e a textura dos papéis. A gramatura e consistência dos objetos voltaram a ser relevantes.
Algo que não fazia há muito tempo, desde a época que cursei Arquitetura e Urbanismo. Estar na rua – onde as histórias acontecem. Sujeito às dificuldades e alegrias de estar exposto. Clima, tempo, acontecimentos, surpresas... Malucos-beleza com visões duplicadas, travestis sedentos por desenhos safados, curiosos enigmáticos, cantores de praça, piás bisbilhoteiros, turistas interessados, alimentadores de pombos, fantasmas locais, senhoras fumantes, amantes inspirados, avôs, camelôs, ciclistas, escritores, floristas, mendigos, estudantes, cachorros, urubus e gatos citadinos.
Aliás, reencontrei antigos colegas do curso também. Depois de treze anos de formado.
Também conheci artistas fantásticos e entre eles, encontrei um mestre – José Marconi. Eu, que achava que não tinha mais idade para isto. Para viver experiências assistidas em filmes e/ou pertencer a um bando.
Relembrei ao lado destes colegas, conceitos de desenho de observação e proporção. Redescobri minha própria cidade. (Se ela realmente existe e não esteja diariamente sendo criada).
Das vezes que fomos desenhar “in loco”, mesmo de baixo de chuva, no manguezal (no caso da ida à Paranaguá) ou em condições difíceis.
Voltei a perceber Curitiba com olhos criativos (e não apenas através de um olho dispositivo de segurança – utilizado como ferramenta de combate). Todos os detalhes – cornijas, pilastras, peitoris, lambrequins, balaustradas.
Agora ando pelas ruas conjecturando temas a serem croquizados.
Desenhar para mim é como contar histórias. São crônicas gráficas, pois costumo inserir personagens cotidianos nelas.
Durante a semana, ainda faço trabalhos para clientes. Mas já divido meus horários com encomendas de pinturas e aquarelas pessoais. E estas novas criações, contrabalanceiam o stress do dia-a-dia. 
Há quem acredite que os encontros dominicais do grupo “Croquis Urbanos” só aconteçam em sonho. Uma espécie de delírio coletivo, orientado pela sugestão do evento no Facebook. Sonhamos que desenhamos. Ou é o contrário – sonhamos a rotina da semana e acordamos do transe aos domingos.


(Fabiano Vianna, 09/04/14)


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A croquizeira e o trem


Rubens Nemitz Jr

A croquizeira Giovanna Festa está nítida na excelente fotografia de Rubens Nemitz Jr. Concentrada e imóvel, frente a transitoriedade do movimento do trem/tempo. 

Enquanto o fotógrafo é capaz de registrar diversos segundos da passagem da locomotiva, a croquizeira só é capaz (geralmente) de um único desenho – mas que procura condensar (ou não) todo o período da manhã. 

Depois que o trem/tempo passa, resta o vazio. A locomotiva desaparece. Mas o croquizeiro não. E possuiu agora o desenho – que eu chamo de “uma infinita presença”. (F.V., 18/01/15)

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Sobre a imagem, o fotógrafo Rubens Nemitz Jr. escreveu:
Essa obra, em especial, foi a que exigiu maior precisão e percepção, e foi a primeira fotografia que fiz no domingo. Quando cheguei no Arquipélago, percebi o som do trem vindo lá dos cafundós. Busquei o melhor local, e fiz da árvore um monopé, necessário para essa longa exposição, a qual, tecnicamente à luz do dia, costuma ser o auge da complexidade (100mm, 1/15seg, f/18, ISO 100) quando não se tem à mão filtros de densidade neutra e outras "tintas para amenizar/ressaltar" foco e movimento. 
Embora a vermelhidão do trem cortando o túnel verde fosse predominante, enxerguei a cena toda em preto e branco; as cores dentro dos tons monocromáticos trouxeram o movimento à tona, dividiram o sol intenso das sombras, e o foco na artista seria meu punctum, receita a qual, aliada a nitidez que eu precisava, me traria a interação da tranquilidade humana presente num croquista, mesmo quando uma máquina mortífera avança correndo pelo metal quente. Foi este o objetivo desta obra, onde o "delicado som do trovão" soma àqueles que buscam utilizar sua luz. 

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cachorrinhos e pássaros

Montagem de Washington Takeuchi, com desenhos dos croquizeiros na Praça do Japão, em 03/08/14. 

Anteontem chegaram dois velhinhos, bem velhinhos mesmo para ver meu desenho durante o encontro do Croquis Urbanos na Praça do Japão. Ela muito mais animada do que ele, com olhos estalados, comentou:
– Que lindos os cachorros, passarinhos! Oh como eu queria saber desenhar cachorrinhos e passarinhos! Gostaria de aprender só para desenhá-los!
E o velho, ranzinza, chateando-se com a empolgação da esposa, contestou prontamente:
– Que desenhar pássaros e cachorrinhos o quê! Você tá na idade de desenhar bengala, andador, cadeira de rodas, fraldão...
A velhinha, totalmente desanimada e ofendida virou-se para mim e disse:
– Viu só como ele me põe pra baixo? É assim! Por isso que eu não desenho! Por isso não faço nada.
Daí o senhorzinho continuou a andar, deixando-nos pra trás, e eu disse a ela:
– Deixe-o em casa com o fraldão e venha desenhar conosco aos domingos!
O velho agia como um corvo, rezingando no alto de um galho da cerejeira. Enquanto ela era uma querida poodle branca, com pelos bem crespos, eufórica, saltitando entre os croquis.



(Fabiano Vianna, 04/08/14)

Roupa suja se lava na praça!


Marlyn Tows

Ontem enquanto croquizávamos, um distinto senhor mendigo trajando trapos e gravata sobre camiseta rasgada atravessou a Praça Zacarias em direção a um bueiro. Retirou a tampa e adentrou até a cintura. Eu, André e MIsael, impressionados, achamos que sua intenção era cagar ou mijar lá dentro. Talvez aliviar nas águas violentas e misteriosas do Rio Ivo, que corre nos subterrâneos. Mas seu intento na verdade era outro, e sumiu de corpo inteiro para baixo da terra.
Alguns minutos depois, roupas voaram lá de dentro.Os pedaços de pano foram arremessados em direção à Praça. Um foi parar no banco, outro ficou pendurado na cobertura do ponto de ônibus, outro na cabeça da estátua...
Por pouco não atinge uma croquizeira nova que desenhava a águia maçônica do Edifício Acácia.
Eu e André ficamos na expectativa de descobrir o que havia lá embaixo, até que o homem enfim reapareceu. Primeiro a cabeça, depois a barba, gravata e o resto. Abandonou o buraco onde provavelmente mantém seu “armário” de roupa (há quem diga que os subterrâneos de Curitiba são habitados por basiliscos gigantes e que o maior deles repousa a cabeça sob a Catedral).
Então o mendigo caminhou pela Praça e escolheu uma das peças caídas – uma calça, e levou-a para lavar no chafariz.
Aparentemente era seu dia de lavar de roupas e, com ou sem croquizeiros, ele faria isso, claro!
Torcia e batia os panos no chafariz. Arrastava-os, circundando a “piscinona”, como se os levasse para passear. Depois os puxava com violência, respingando água para todo lado (e quase estragou a aquarela da Sueli Bmp). Assustando as pombas e nós – mais ainda.
A sua roupa limpa com água, tornava a sujar, passada sobre as merdas dos ratos voadores.
Depois de fazer isso com mais dois ou três mudas, desapareceu. Deixando algumas para secar sobre os petit pavés.
De repente olhei para a águia bicéfala e ela possuía uma nova forma. Uma cabeça de águia e outra de cueca.



(Fabiano Vianna, 11/08/14)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

XV-Wing


Primeiro croqui de 2014, encomendado pelo brother Washington Takeuchi. Esta área da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba, é a favorita dele. 
Propus que desenhasse da 'asa' do XV-Wing. No 2º andar da casa de sucos. Um lugar privilegiado da força, onde seres transitavam sem nos ver. Zumbis militares, senhores com barba-de-neve, periguetes deprimidas, senhores do ôro e da prata. 
Flanam sobre petit-pavés que viram pombas e tampas de bueiros que tamponam o subterrâneo (onde vivem serpentes gigantes e mutações que comem bacon). Criaturas energizadas por parcos raios de sol filtrados nas coberturas roxas de outrora... 
Takeuchi registrou tudo. Desde o papel branco, primeiros traços à aquarela finalizada. 





(Fabiano Vianna, Curitiba PR. 04/01/14)

sexta-feira, 20 de dezembro de 2013

Medalha na Rua São Francisco


Não me lembro de ter ganhado algum medalha na vida, pois nunca fui o mais veloz, nem bom nos esportes. Não jogava xadrez, tão menos lutei judô.
Na escola, ganhei alguns concursos de desenhos para capas do “Nossas Cabecinhas Todas Juntas” – uma antologia anual com redações dos alunos.
Meu negócio era mesmo o desenho.
E hoje fui condecorado por um amigo da rua.
Se não me engano o nome dele era Hudson. (Não consegui compreender, mesmo depois de perguntar três vezes).
Hudson estava meio chapado.
Ele disse que o meu desenho era coisa de doido, maluco e que eu tinha ido looooongeeee, alcançando até mesmo a torre da Igreja da Ordem.
Disse que não queria questionar meu profissionalismo, mas fazer um desenho como o que fiz (e que agora pertence ao brother croquizeiro Maurício Goez), não era coisa de gente normal. E eu merecia uma medalha por isso.
Eu ri e agradeci, lógico.
Despedimos-nos e ele pediu que eu levasse uma ‘fotocópia’ para ele. A coordenada seria a Rua do Rosário, onde ele trabalha durante a semana como guardador de carros.
Assenti e atravessei a rua em direção aos outros croquizeiros, ansioso e curioso para ver o que os amigos tinham feito.
Depois de um tempo, quando já iniciado nosso magnífico e estreante evento Croqui Secreto, Hudson voltou. E apareceu apenas para me entregar meu prêmio: uma medalha em forma de chaveiro, com o mapa do Panamá. 



Fotos por Cassio Shimizu


 Fotos por Rafael Pto

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Pizzaria Itália



A Pizzaria Itália é uma lanchonete totalmente vintage, no centro de Curitiba, que oferece uma vitamina psicodélica rosa, a qual possui uma receita secreta. Eu sei os ingredientes, mas não posso divulgar.
Frequento desde bem novo, quando ia para o centro com minha mãe. O acordo era que, depois de uma pernada pelas lojas, deveríamos sempre terminar o dia comendo uma pizza e bebendo uma vitamina. A pizza é vendida em fatias, e de sabor único: grossona com muito queijo.
Fica na Rua Cândido Lopes, perto das Lojas Americanas e Galeria Tijucas.
Com o tempo percebi que era o local ideal para detetives, pois as paredes são todas revestidas por espelhos. É possível observar o movimento de todos os ângulos e cuidado: o guardanapo não limpa! É daqueles que só espalha a gordura. Mas isto se torna tão habitual, principalmente pela forma que eles se alinham – parecendo montanhas em leque, que você passa a gostar.
Outro perigo é de você trocar de posição com seu reflexo e entrar na cidade errada. Quando isso acontece, você passa a segurar a caneta com a outra mão e tudo fica ao contrário. Relógios, volantes, placas, anúncios. Daí o negócio é voltar até a pizzaria e atravessar novamente o espelho. 

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

A Casa Estrela

Foto de Washington Takeuchi

Acho que fui um dos cinco primeiros a chegar, quando encontrei o professor Ivens Fontoura – um dos responsáveis, ao lado de Claudio Forte Maiolino, pela reconstrução da Casa Estrela na PUCPR.
Ivens me explicou que o nome da casa é uma referência ao formato da construção, cuja planta é baseada em uma estrela de cinco pontas. E que em cada ponta da casa, existe um continente.
Construída em 1930 pelo exímio contador Augusto Gonçalves de Castro, a casa foi moradia da família até os anos 90. Vivendo entre gigantescos arbustos de hortências e raios solares diagonais.
Adepto da Teosofia e Esperanto, Castro escolheu dar uma forma à casa que simbolizasse os ideais pacifistas e de unidade dos povos que estas duas correntes expressam. O contador levou aproximadamente quatro anos para concluir a construção. (Mas há quem diga que esticou até o quinto, esmerando-se na pintura, só para fazer sentido).
O trabalho foi desenvolvido com auxílio de ferramentas precárias e um lampião de carbureto, sempre após o expediente normal na empresa Macchine Cottons onde exercia a função de contador.
A casa ergueu-se sob a luz do carbureto.
E, refeita, mantém esta atmosfera. O sol escorre pelas linhas das tábuas e dorme embaixo da pequenina escada, no porão. Por isso que às vezes não dá as caras aos curitibanos.

Mario Freitas

Paco Steinberg

Há quem diga: “A cobertura é feia, esquisita e foi estruturada toscamente – na base da tentativa-e-erro”. Mas quando vejo de cima, apaixono-me sempre. Sinto vontade de colocá-la no bolso. Existe para mim, muita beleza na concepção inocente. O telhado multifacetado obscurece a tacanhice dos construtores metodistas mascarados. Não há regras quando o efêmero transforma-se em eterno, nem quando a candura rege a verdade.
A casa está segura, sob as asas da Pontifícia Universidade Católica do Paraná e em nossa memória, ou seja, no tempo.
E se você captar o comentário “O carpinteiro deve ter improvisado”, responda que não existiu tal pessoa. Augusto construiu sozinho, munido apenas de uma serra de arco artesanal.
Ivens enumera-me uma quantidade incrível de personagens que fizeram parte da história da casa, e reforça que, conectados por linhas, formam inúmeros pentagramas sobrepostos.
Num deles está o automóvel marca Buick que Augusto trocou por um lote de madeira de pinho, vigas, vigotes, ripas e tábuas com 12 polegadas – ligado ao documento do alvará assinado pelo engenheiro Júlio Moreira, Diretor de Obras da Prefeitura de Curitiba.
Noutro, alfinetes com nomes dos teosóficos Pitágoras, Jakob Böhme, Helena Petrovna Blavatsky, Henry Steel Olcott e William Quan Judge. Justaposto ao traçado de um mapa do bairro Alto da Glória e interligado ao nome de Ludwik Lejzer Zamenhof – iniciador do Esperanto.
Em cada ponto em que as estrelas se tocam, cresceu uma árvore.
O Reitor Irmão Clemente Ivo Juliatto, que é um dos cinco que chegaram cedo, conta-me que o terreno da PUCPR onde a casa foi instalada era um espaço para mudas – das árvores a serem plantadas no campus. E que algumas raízes, depois de um tempo, ultrapassaram os pacotes e fixaram-se ao solo. O que me leva a pensar que elas queriam ficar ali, ou foram arquitetas e decididas dentro de um diagrama maior.

Paco Steinberg

Simon Taylor

Depois o dia correu no mais perfeito caos. Os croquiseiros chegaram, comemoramos seis meses de encontros ininterruptos e fizemos muitos desenhos. Muitos olhares e técnicas diferentes compuseram um panorama fantástico. E o sol, que mora no porão, se recolheu à tarde, abrindo caminho para uma tempestade fabulosa que rematou nossas atividades. (Por sorte Ivens trancou as aquarelas num baú).

Fabiano Vianna

Raquel Deliberali

Fabiano Vianna

Amir Samad Shafa

José Marconi

José Marconi

Dante Mendonça

Marina Luxi

Cassio Shimizu

Fabiano Vianna por Washington Takeuchi

E enquanto eu esperava um táxi no portão 1, contemplando a chuva, conversei com o guarda noturno da universidade, Diogo. Ele passa a noite toda acordado, na guarita. Ou caminhando durante aquele setor.  
Disse-me que algo paira sobre a Casa Estrela. Morcegos e Corujas sobrevoam o telhado todas as noites. As árvores movem-se ao contrário e sombras perambulam pelas pequenitas escadas.  E falou que, de vez em quando, no silêncio da madrugada, é possível ouvir a respiração ofegante de um homem trabalhando e o som de uma serra – cortando madeira.



(Fabiano Vianna, 02/09/13)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

O Bosque Circular


... capturar o Bosque do Papa num desenho circular. Trezentos e sessenta graus. Mestre Marconi trouxe o caderno – com páginas brancas coladas umas nas outras e eu esbocei a panorâmica. Apoiamos o caderno no palco cíclico que virou uma mesa. Onde acontecem as danças em dias de festas.
Porém, o que parecia simples no começo, tornou-se complexo, devido ao curto espaço de tempo – duas horas, e grande quantidade de elementos: árvores, casas, jardins, caminhos, duendes... Eu disse duendes?
E o círculo não se fechava. O desenho começava numa ponte e terminava nela mesma, porém era diferente. E tenho quase certeza que as árvores se moviam. Inclusive os homens-azuis também disseram isso. E dá-lhe aquarela, respingos de tinta, traços em nanquim e spray. Di Magalhães, Fernando Nolasco, Caroline Lemes, Giovana Lago, José Marconi, Lia Rossi, eu e Cassio Shimizu.
Alternávamos posições e cada um via/desenhava um bosque. Na intersecção dos planos, formou-se um abismo negro e foi de lá que todas as coisas surgiram: besouros de cabeças azuis com olhos nas costas, amores perfeitos, árvores barbadas, casas de madeira, burburinhos e discussões miniaturas.
Não era possível ver o fim do caminho de pedras.
De repente, um lápis branco jogado no meio da relva...
– Onde está minha lapiseira?
Nosso objetivo era...

(18/07/13)





O nanquim que escorre entre os prédios


Ontem nós – croquiseiros urbanos nos encontramos na Praça das Nações. A missão era capturar a panorâmica da cidade, linha do horizonte composta por prédios minúsculos. De lá é possível observar Curitiba de um ângulo muito privilegiado – de cima para baixo. A Praça fica no entroncamento (com via elevada) das avenidas Nossa Senhora da Luz, Mal. Humberto de Alencar Castelo Branco, Sete de Setembro e Rua Raphael Papa – divisa de bairros entre o Alto da Rua XV, Cristo Rei, Jardim Social e Tarumã. Amparados e protegidos por um mural de azulejos, coloridaço, de Poty Lazzarotto.
Eu cheguei atrasado em virtude a uma tragédia caseira envolvendo um frasco de nanquim rebelde que abriu dentro de minha bolsa. (Me senti como o adolescente que deixa o tubo de cola abrir dentro da mochila). Atropelado por uma tsunami negra, fui o caminho todo desviando de nuvens de nanquim fantasmagóricas e tentáculos de polvos delirantes. Só consegui chegar ao local marcado, graças a capitã Raquel Deliberali, que firme no timão, manteve a embarcação de pé em meio a ondas negras assombrosas.
Quando eu e Raquel chegamos à Praça, os mestres José Marconi, Reinoldo Klein, Gustavo Ramos, João Paulo e Simon Taylor já estavam mandando ver numa composição conjunta, de papéis conectados, proposta pelo Marconi – Pajé urbano, jedi da arte, entusiasta dos desafios gráficos.


Foto: Raquel Deliberali

Marconi gosta de provocar novas empreitadas.  E são estas campanhas que nos movem a improvisar. Utilizar os olhos & mãos & pincéis & braços & mente de formas não imagináveis. Foi ideia dele, durante a semana, que fizéssemos um painel único, a várias mãos. Para tentar assim capturar a panorâmica. Nunca tínhamos feito isso. Nos outros encontros, sempre desenhávamos casas isoladas. No máximo uma vila delas ou prédios altos.
O local também influiu na inovação, arremetendo suas improbabilidades sobre nós.
Chegamos ao ponto marcado junto com uma dupla de rappers, que inclusive vieram no mesmo ônibus de Wagner Polak. Os caras foram até lá em cima para bater umas chapas. Afinal rappers sempre fotografam com prédios atrás. (Deve fazer parte do pacote. Heheh). E enquanto eu e Wagner – retardatários do dia, decidíamos o que íamos desenhar, o rapper mostrava para os outros colegas o seu último CD gravado – o qual possuía a emblemática faixa intitulada “Trampo de Pedreiro”. 


Foto: Gabriela Alves

Depois de me contar que seu guarda-chuva fora roubado durante o percurso ( o que me deixou tristíssimo, afinal tínhamos nomeado símbolo dos croquiseiros curitibanos),  Wagner teve a ideia de montarmos uma tripa de Canson, e desenharmos uma panorâmica, como nossos colegas estavam fazendo. Fizemos isso, cooptando Cassio para a missão – que começava um promissor desenho com traço branco em papel preto. O desenho branco no preto de Cassio-man teve que ficar para outra oportunidade...
Apelidamos nossa obra de “A Tripa dos Retardatários” e Simon logo emendou que a outra seria “A Tripa dos Pontuais”.
Quando iniciamos eram quase 11 horas, o que nos obrigou a resolver a peleja em apenas uma hora, que é o limite temporal máximo proposto pela prática do Sketch Crawl. (Os desenhos sempre devem ser finalizados no horário pré-agendado no evento).
E dá-lhe traços nervosos, velozes, como se nossos dedos fossem pincéis. Não havia espaço para canetas finas 0.4 nem para lapiseiras 0.9. A batalha teve que ser encarada com grandes pontas e pincéis grossos. Foi uma corrida contra o tempo. O cenário foi sendo sorvido aos poucos, pelo painel. (Imagine se ao ser desenhado, desaparecesse do mundo real...). Sugamos carros, árvores, poste, grafite Grood, painel do Poty, caixa d´água, construção do Lolô Cornelsen, o parapeito onde estávamos...



Fotos: Raquel Deliberali

Lembrei que Van Gogh, ao pintar girassóis, ficava impaciente (para não dizer – puto), porquê as flores murchavam antes que ele terminasse a tela. Monet também pintou diversas versões da mesma vista, na Estação Saint-Lazare, em Paris. Em diferentes épocas do ano.
Longe de mim, comparar a estes gênios. Mas a sensação de apreensão do tempo é parecida. Durante o processo, eu tinha vontade de sobrepor os carros, como fazem alguns fotógrafos, ao submeter o diafragma a extensos tempos de abertura. E superpor os movimentos de todos os transeuntes que passaram – o ranzinza com calça de pijama, o casal de ciclistas apaixonados, os rappers, jornalistas da Gazeta...
Falando nisso, enquanto desenhávamos, foram chegando outros participantes, como a fotógrafa Gabriela Ferreira, que registrou a cena com olhos mecânicos fantásticos. Raquel Deliberali também fez isso, circundando o platô, indo de lado a outro da Praça, capturando tudo.
Ao final concluímos duas imensas tripas urbanóides desenhadas. Fragmentos longilíneos de Curitiba. Cada uma com um aroma específico.
Alguém pode até conjecturar que tratam de suas cidades diferentes – uma mais delgada que a outra. Ou que sejam duas apreensões de tempos diferentes, afinal um grupo começou antes que o outro. Enfim, várias interpretações são possíveis. Até porque existem muitas Curitibas em Curitiba. E mesmo que desenhássemos todo dia, no mesmo local, os desenhos seriam totalmente diferentes um do outro.
Neste exato momento, Curitiba esvai-se pelas ruas do viaduto e modifica os olhos da caixa d´água da Sanepar, a cada novo rasante dos quero-queros, que matam a sede na torneira do mural do Poty.
A cidade se move e modifica como o nanquim, que esparramou na minha mochila antes de sair de casa.
Ela escorre pelos bueiros, como se fosse tinta. As construções, às vezes são apagadas e substituídas por prédios novos. Seus traços são definidos por pinceladas, por traços ora grossos e finos. (depende da altura e da distância de quem olha).
Dizem que a cidade surge de uma torneira que nunca fecha.

(20/05/13)


"Não importa o formato, o tamanho, por quantas mãos passe o desenho. O importante são as pessoas reunidas explorando os traços e o companheirismo, o(s) objeto(s) de trabalho é (são) um mero pretexto para reunir as pessoas."

Cassio Shimizu